Um dia, depois de anos e anos a acordar com hora marcada para chegar a horas ao emprego, depara-mo-nos com a dura realidade de já não ser preciso acordar cedo. Acordar cedo é para quem tem o que fazer, para quem tem para onde ir, não para quem repentinamente se depara com o desemprego e não tem hora marcada para nada, nem tarefas obrigatórias a cumprir. Acordar cedo para quê? Quanto mais cedo se acorda, mais tempo temos para nada fazer, mais tempo temos para pensar no vazio em que repentinamente a vida se tornou. Dizem-nos que temos que contrariar esses pensamentos, que não nos podemos entregar ao desemprego. É verdade, não podemos. Mas com o passar do tempo, o desemprego deixa de ser uma situação, para passar a fazer parte de um estado de alma, e é difícil controlar e contrariar o que nos vai na alma. Atrasam-se contas, passamos a ter insónias, deixamos de viver, passamos a sobreviver. Mandam-se currículos, responde-se a anúncios, vivemos na ...